Adolescentes contam como suas vidas melhoraram depois do homeschooling

Eu estudava em uma escola rural de Gramado, a 6 km da minha casa, bem pequena, que devia ter uns 60 alunos. A kombi passava me buscar às 6h30, e pouco depois eu chegava na escola. O problema é que eu e os outros alunos éramos deixados sozinhos na escola, em torno de uma hora, sem a supervisão de um adulto sequer, para a kombi ir buscar os outros alunos. Definitivamente isso é algo que eu não gostava.

Valentina Dias, 15, Gramado (RS)

Eu acordava e ia para a escola. Chegava à tarde e fazia o dever de casa. Mas eu não gostava nem um pouco da quantidade exagerada de tarefas para fazer! Algumas professoras eram muito bravas e xingavam muito. As aulas eram cansativas e às vezes eu tinha medo de não conseguir acabar as atividades junto com os outros.

Bruno Junior Corrêa, 13, Contagem (MG)

Passei por situações ruins. Algumas crianças me forçavam a fazer coisas como mentir para a professora, ameaçavam me bater, ou romper com a amizade, caso eu não fizesse o que eles queriam. Tinha uma criança que não tinha paciência e me batia. Por inúmeras vezes eu fui para a escola e não tinha aula. Outras vezes eu tive que ficar esperando o portão abrir embaixo de um sol muito quente ou de chuva.  

Camila Jardim, 13, Contagem (MG)

O que esses três depoimentos têm em comum? Foram feitos por adolescentes que saíram da escola por enfrentarem diversos tipos de problemas, como professores sem a formação psicológica e profissional necessária para lidar com crianças, falta de estrutura, bullying de outras crianças, dentre outros.

A solução adotada pelos três pais foi a mesma: tirar o filho da escola e ensiná-lo em casa. Isso mudou completamente a vida dos três - para melhor. "Não tenho a mínima saudade. Aqui não sofro nenhum dos problemas que tinha na época do colégio. E, dos pontos positivos da escola, consigo aproveitá-los ainda mais em casa", afirma Camila Jardim, sobre o fato de conseguir estudar mais e em um ritmo ainda melhor no homeschooling, que já está há cinco anos.

Opinião parecida tem Bruno Júnior. O começo, ele admite, foi um pouco estranho. Ele não gostou muito quando ficou sabendo que seus pais iriam tirá-lo da escola, e demorou um tempo para se acostumar. Mas hoje vê o resultado. "Eu estava estudando menos tempo do que na escola, mas aprendendo muito mais", diz.

Já com Valentina Dias o pedido para deixar de frequentar as aulas partiu da própria menina, há quatro anos. Os pais já analisavam praticar homeschooling com ela, até que um dia a menina não aguentou mais a situação estressante relatada no início deste texto - como esperar mais de uma hora para começar suas aulas.

O maior medo de Valentina nessa nova fase? "Descobrir que dali para frente eu teria que pesquisar e aprender por mim mesma, sem as respostas mastigadas e prontas", conta a adolescente gaúcha.

Os três precisaram de um tempo de adaptação, é verdade, que variou de caso a caso, mas que é absolutamente normal para qualquer atividade. "No segundo ano eu comecei a sentir falta de amigas, mas isso logo passou, quando fiz novas amizades na igreja", lembra Valentina.

Camila Jardim não sabia nem por onde começar seus próprios estudos - apenas tinha noção que seria ela mesma quem teria que correr atrás das respostas dos exercícios. Ela não se lembra exatamente quanto tempo demorou para se adaptar a esse novo estilo de vida, mas agora pode cravar que está feliz. "Meu rendimento é maior, porque tenho tempo de pesquisar mais coisas, posso voltar se não entender uma matéria, enfim, tenho todo o tempo a meu favor".

Falar em rotina para os três também é bastante difícil - apesar de terem horários previamente estabelecidos, eles conseguem, assim como todo homeschooler, flexibilizar muito de acordo com as necessidades que vão surgindo. "A rotina sempre muda de acordo com imprevistos", afirma Bruno Júnior. Apesar disso, o menino garante que, geralmente, acorda, toma café e estuda. Depois lê seus livros e também aproveita a tarde livre. E toda terça e quinta-feira ele faz aulas de Muay Thai.

Valentina diz o mesmo que o colega homeschooler. "Minha rotina é aleatória". Dentre as coisas que ela faz, estão: ler a Bíblia, cozinhar, estudar, aulas de piano, costurar, desenhar.

Ao menos para Camila Jardim uma vantagem em sua vida pessoal o homeschooling já trouxe. "Me tornei uma pessoa mais tranquila, por estudar em casa e ter horários flexíveis, ter uma mãe e um pai por perto para tirar minhas dúvidas com paciência".

E os homeschoolers parecem já pensar longe. Valentina, com seus 15 anos, já projeta sua profissão. "Eu amo cozinhar, mas comidas diferentes, pois sou vegana. Quero fazer faculdade de nutrição e abrir meu próprio negócio aqui em Gramado. Não tem nenhum restaurante vegano na cidade, que é bastante turística", conta.

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